{"id":4960,"date":"2021-09-04T12:36:02","date_gmt":"2021-09-04T12:36:02","guid":{"rendered":"http:\/\/portalpraties.com.br\/site\/?p=4960"},"modified":"2021-09-04T12:36:02","modified_gmt":"2021-09-04T12:36:02","slug":"jogos-paralimpicos-momento-para-perceber-que-superacao-nao-tem-ligacao-com-deficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/2021\/09\/04\/jogos-paralimpicos-momento-para-perceber-que-superacao-nao-tem-ligacao-com-deficiencia\/","title":{"rendered":"Jogos Paral\u00edmpicos: momento para perceber que supera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com defici\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00c9 preciso superar o entendimento de que qualquer desempenho de atletas paral\u00edmpicos \u00e9 bom ou \u201cextraordin\u00e1rio\u201d. O nome disso \u00e9 capacitismo e revela muito de quem pensa assim<\/h2>\n\n\n\n<p>Fonte: redebrasilatual.com.br<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00f3quio \u2013 Passados os primeiros dias dos Jogos Paral\u00edmpicos j\u00e1 foi poss\u00edvel ver diversas modalidades praticadas de modo adaptado ao formato original, em maior ou menor grau, e tamb\u00e9m algumas que s\u00f3 existem neste padr\u00e3o esportivo. \u00c9 certo que, via de regra, o p\u00fablico em geral ainda tenta entender como funciona uma partida de&nbsp;<em>goalball&nbsp;<\/em>ou um jogo de bocha, admira um basquete em cadeira de rodas onde se quica menos a bola, ou enxerga pouco do r\u00fagbi tradicional no praticado por cadeirantes. Fato \u00e9 que os jogos s\u00e3o eletrizantes, cheios de emo\u00e7\u00e3o e disputas acirradas. O que \u00e9 normal, afinal s\u00e3o praticados por atletas. E \u00e9 isso o que eles s\u00e3o: atletas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da visibilidade que os Jogos Paral\u00edmpicos d\u00e3o a essas novas modalidades, h\u00e1 mais espa\u00e7o para falar das pessoas com defici\u00eancias que competem em T\u00f3quio. E, principalmente, ajudar a esquecer os discursos clich\u00eas sobre supera\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o de qualquer resultado como se fosse bom. O chamado capacitismo, uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o da pessoa com defici\u00eancia que parte do pressuposto de que ela \u00e9 incapaz ou menos capaz do que as sem defici\u00eancia. Sugere que h\u00e1 um padr\u00e3o \u2018correto\u2019 para a estrutura corporal e mental e, por consequ\u00eancia, que a defici\u00eancia seria uma falha, um problema, uma doen\u00e7a. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mariana-dandera-edit.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-514229\"\/><figcaption>Mariana D\u2019Andrea conquistou a primeira medalha de Paralimp\u00edada no halterofilismo, e logo a de ouro (Takuma Matsushita\/CPB)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Esse comportamento, ali\u00e1s, \u00e9 crime e est\u00e1 previsto na Lei N\u00ba 13.146, de 6 de julho de 2015, o chamado\u00a0<strong>Estatuto da Pessoa com Defici\u00eancia<\/strong>. Apesar do termo n\u00e3o estar na norma, o artigo 4\u00ba diz que \u201ctoda pessoa com defici\u00eancia tem direito \u00e0 igualdade de oportunidades com as demais pessoas e n\u00e3o sofrer\u00e1 nenhuma esp\u00e9cie de discrimina\u00e7\u00e3o\u201d . Antes dele, o par\u00e1grafo primeiro expressa claramente: \u201cconsidera-se discrimina\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da defici\u00eancia toda forma de distin\u00e7\u00e3o, restri\u00e7\u00e3o ou exclus\u00e3o, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, que tenha o prop\u00f3sito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exerc\u00edcio dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com defici\u00eancia, incluindo a recusa de adapta\u00e7\u00f5es razo\u00e1veis e de fornecimento de tecnologias assistivas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Compara-se os compar\u00e1veis<\/h3>\n\n\n\n<p>Achar que um atleta com defici\u00eancia \u00e9 um \u201cexemplo de supera\u00e7\u00e3o\u201d simplesmente por ser um atleta \u00e9 um dos erros mais comuns neste sentido. Faz-se isso, via de regra, por compar\u00e1-lo a um sem defici\u00eancia, usando como padr\u00e3o do correto as condi\u00e7\u00f5es de pr\u00e1tica esportiva vivenciadas por esse \u00faltimo. Em outras palavras, fala-se que o nadador amputado \u00e9 um exemplo de supera\u00e7\u00e3o porque ele consegue fazer o que o n\u00e3o amputado faz.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa forma de avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o leva em conta o desempenho do amputado, se ele nadou melhor ou pior do que costuma fazer no cotidiano de seus treinamentos. N\u00e3o se compara, por exemplo, o tempo que ele levou para completar os 50 metros em uma final paral\u00edmpica com o que ele marcou na semifinal. Se foi pior, \u00e9 evidente que ele n\u00e3o se superou. Pelo contr\u00e1rio, foi mal ou, ao menos, frustrou suas pr\u00f3prias expectativas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/israel-stroh-edit-1024x643.jpg\" alt=\"(Takuma Matsushita\/CPB)\" class=\"wp-image-514231\"\/><figcaption>Israel Stroh foi prata na Rio-2016 e n\u00e3o passou das quartas em T\u00f3quio-2020 (Takuma Matsushita\/CPB)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O jornalista Marcelo Romano, um dos mais especializados em esporte ol\u00edmpico do pa\u00eds, defende que a avalia\u00e7\u00e3o dos atletas nos Jogos deve ser feita comparando-se o desempenho no evento com o que ele fez no chamado \u2018ciclo ol\u00edmpico\u2019, per\u00edodo de quatro anos entre uma edi\u00e7\u00e3o e outra da Olimp\u00edada. Se o competidor manteve-se sempre entre os top 3 no ciclo e fica em quinto, sexto nos Jogos, por exemplo, o resultado \u00e9 ruim. Se manteve-se entre o 12\u00ba, 13\u00ba lugares nos quatro anos e fica na mesma quinta coloca\u00e7\u00e3o na Olimp\u00edada, o resultado \u00e9 acima do esperado. O mesmo vale para os Jogos Paral\u00edmpicos. Avalia-se comparando o que \u00e9 compar\u00e1vel. Partir do princ\u00edpio de que qualquer coisa que o atleta com defici\u00eancia faz j\u00e1 est\u00e1 bom s\u00f3 porque ele fez, sugere uma vers\u00e3o de que, em princ\u00edpio, aquele ou aquela esportista \u00e9 \u201cincapaz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">\u201cEspecial \u00e9 para quem voc\u00ea paga uma pizza\u201d<\/h3>\n\n\n\n<p>A velocista Ver\u00f4nica Hip\u00f3lito, um das grandes atletas paral\u00edmpicas do Brasil, viralizou uma frase em recente coment\u00e1rio feito ao canal\u00a0<em>SporTV<\/em>. \u201cA gente sempre escuta \u2018uma grande supera\u00e7\u00e3o o movimento paral\u00edmpico, um PCD. N\u00e3o tem supera\u00e7\u00e3o, pessoal. O que tem de verdade \u00e9 muito treino, muita resili\u00eancia. A gente reclama igual a todo mundo, tem problema, t\u00e1 tudo bem. A defici\u00eancia \u00e9 s\u00f3 uma caracter\u00edstica como qualquer outra\u201d. E completou: \u201cespecial \u00e9 aquela pessoa que voc\u00ea paga uma pizza, um a\u00e7a\u00ed, alguma coisa maneira. Ningu\u00e9m nunca me pagou, ent\u00e3o n\u00e3o me chamem de pessoa especial. S\u00f3 me chamem quando pagar\u201d, falou, em tom de brincadeira, mas carregada de seriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel Dias,\u00a0<strong>uma lenda da nata\u00e7\u00e3o<\/strong>, com 27 medalhas, sendo 14 de ouro em Jogos Paral\u00edmpicos, em entrevista para o\u00a0<em>GE<\/em>, foi no mesmo sentido. \u201c\u00c9 importante evitar termos que a maioria ainda usa, como \u2018especial\u2019, \u2018deficiente\u2019 e \u2018portador de necessidades especiais\u2019. Essas palavras s\u00e3o um eufemismo, como se fosse necess\u00e1rio amenizar a defici\u00eancia. O mais adequado \u00e9 falar \u2018pessoa com defici\u00eancia\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Suzana Schnarndorf, tamb\u00e9m da nata\u00e7\u00e3o, acrescenta que n\u00e3o h\u00e1 \u201catleta normal\u201d e sim \u201catleta sem defici\u00eancia\u201d. Phelipe Rodrigues, outro que compete nas piscinas, acrescenta: \u201cn\u00f3s atletas s\u00f3 temos um prop\u00f3sito, que \u00e9 melhorar a cada dia, batalhar contra o tempo, melhorando n\u00e3o nossas defici\u00eancias, mas nossas performances.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sim, h\u00e1 supera\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/jessica-messali-triatlo-corrida-dentre-cerrado-jogos-paralimpicos-rede-1024x643.jpg\" alt=\"(Fabio Chey\/CPB)\" class=\"wp-image-514234\"\/><figcaption>J\u00e9ssica Messali fazendo o que parecia imposs\u00edvel ap\u00f3s acidente na sauna (Fabio Chey\/CPB)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Contudo, a palavra supera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 proibida ao falar de atletas paral\u00edmpicos. Ela cabe quando usada em um contexto onde a defici\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 em pauta. A triatleta J\u00e9ssica Messali, por exemplo, competiu ap\u00f3s passar por 10 cirurgias em um per\u00edodo de 25 dias, todas realizadas a poucas semanas dos Jogos. Ela queimou gravemente os p\u00e9s em uma sauna no dia 6 de julho. Al\u00e9m de retirar parte da pele, teve de amputar sete dedos e meio. No final da tarde de s\u00e1bado (28), pelo hor\u00e1rio do Brasil, ela caiu na \u00e1gua para nadar 750 metros, depois cumpriu 20 quil\u00f4metros de ciclismo e mais cinco de corrida. Chegou em quarto lugar, bem pertinho do p\u00f3dio. N\u00e3o h\u00e1 outra palavra que defina o desempenho de J\u00e9ssica que n\u00e3o supera\u00e7\u00e3o.<ins><\/ins><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso superar o entendimento de que qualquer desempenho de atletas paral\u00edmpicos \u00e9 bom ou \u201cextraordin\u00e1rio\u201d. O nome disso \u00e9 capacitismo e revela muito de quem pensa assim Fonte: redebrasilatual.com.br T\u00f3quio \u2013 Passados os primeiros dias dos Jogos Paral\u00edmpicos j\u00e1 foi poss\u00edvel ver diversas modalidades praticadas de modo adaptado ao formato original, em maior ou menor grau, e tamb\u00e9m algumas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4961,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-4960","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4960"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4962,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4960\/revisions\/4962"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalpraties.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}